Investir em bem-estar animal é estratégico e traz benefícios para o avicultor, defende especialista
A iniciativa de investir na melhoria do bem-estar animal na avicultura deve partir do setor produtivo. O avicultor não deve ficar esperando uma determinação da União Europeia, de uma ONG (Organização Não-Governamental) ou de um cliente para fazer este trabalho. É preciso pensar ‘Qual é a granja do futuro que o Brasil quer e precisa?’ O país tem a oportunidade de avançar e liderar esse processo.
A opinião é da médica veterinária especialista em avicultura de corte e bem-estar animal, Ana Paula Oliveira Souza. Ela falou nesta quinta-feira (08/10) na Semana de Produção e Sanidade Animal das Cooperativas Paranaenses, evento online promovido pelo Sistema Ocepar, que reuniu cerca de 500 participantes entre gestores, técnicos e produtores rurais ligados ao cooperativismo e, também, estudantes de medicina veterinária, agronomia, zootecnia e demais áreas ligadas ao agronegócio.
Falando sobre “Bem-estar animal: Oportunidades sinalizadas pela ciência e pelo mercado”, a especialista disse que não existe nenhum grande abismo de interesse entre a ciência e a indústria quando o assunto é bem-estar animal. Ao contrário, “já há bastante convergência em relação aos desafios das indústrias e as melhores práticas indicadas pela ciência”, pontuou.
Para ela, investir em bem-estar animal também melhora a vida do produtor rural porque ele passa a ter menos problemas, menor risco de doenças no plantel, menos perdas, mais ganhos e melhores oportunidades.
Novas regras da União Europeia
A veterinária ressaltou explicou que até o final desse ano a União Europeia (UE) irá formalizar a proposta de revisão das regras de bem-estar animal voltadas especificamente para galinhas poedeiras e frangos de corte. A medida faz parte da nova Estratégia para a Pecuária do bloco e visa modernizar estruturalmente a avicultura, dando sequência a reformas estruturais focadas na transição para sistemas que garantam mais bem-estar animal e que sejam sustentáveis.
Os principais pontos em discussão englobam o fim do confinamento em gaiolas, com a transição gradual de gaiolas convencionais para o sistema sem gaiola; a proibição do uso de antibióticos como promotores de crescimento ou ganho de rendimento; e a redução da densidade de alojamento, entre outras medidas.
Ana Paula Souza citou exemplos da Noruega e da Holanda que estão na dianteira desse processo já com bons resultados. Na Noruega, as mudanças foram puxadas pela indústria de carne de frango. Adotaram luz natural com a instalação de janelas nas granjas, reduziram a densidade com menos aves dentro dos aviários, estão buscando novas opções alimentares porque têm a meta de zerar o uso de rações à base de soja. Também adotaram o controle térmico nas granjas, onde havia mortalidade por conta do frio, o que foi reduzido em 80% e também reduziram em 65% a mortalidade no transporte. A Noruega também anunciou a adoção voluntária, a partir de 2027, de novas linhagens de aves, eliminando as raças de crescimento rápido e substituindo para as de crescimento moderado e com melhor padrão de bem-estar animal.
Na Holanda, quem determinou o início das mudanças foi o varejo. Atualmente, 93% da carne de frango vendida nos supermercados já são certificadas por boas práticas de bem-estar animal. No país, também foi adotada a luz natural com janelas nas granjas e a densidade foi reduzida para, no máximo, 12 aves por metro quadrado. Também houve redução de 80% no uso de antibióticos, a partir da adoção das linhagens de crescimento moderado no lugar das de crescimento rápido.
Brasil
Para o Brasil, a especialista diz que o momento traz uma oportunidade para avançar em bem-estar animal. “Não precisa acontecer tudo de uma vez. É importante identificar os requisitos que passam a ser exigidos e implementar de forma progressiva”, orienta. Ela observa também que não há necessidade de ruptura, mas sim de organização e planejamento.