Crescimento de mercado de bioinsumos brasileiro é destaque na Relare
As tendências de mercado, a inovação e os modelos de negócios são temáticas debatidas quarta-feira (19/08), na XXII Reunião da Rede de Laboratórios para Recomendação, Padronização e Difusão de Tecnologias de Inoculantes Microbianos de Interesse Agrícola (Relare), realizada nos dias 19 e 20 de agosto, no Centro de Eventos Sistema Fiep, em Curitiba (PR). Em 2025, o mercado de bioinsumos no Brasil representou R$ 7 bilhões, registrando, entre 2019 e 2024, uma taxa de expansão de 21%: um crescimento quatro vezes superior à média global, segundo Larissa Plaisant Bonotto, da ANPII-Bio. “Essa rápida ascensão é evidenciada no aumento do número de empresas produtoras, que saltou de 81, em 2019, para 209 atualmente, marcando a transição de um setor experimental para uma arena comercial que exige cada vez mais diferenciação”, diz Larissa.
Na sua visão, os bioinsumos englobam categorias distintas - como biocontrole, bioinoculação, produtos on-farm e bioestimulantes - cada qual com funções e maturidades específicas. Mesmo a utilização de bioinsumos estando concentrada em soja, milho e cana, há oportunidades em culturas como café, laranja, carne e frango. “O crescimento e a consolidação do mercado de bioinsumos não serão impulsionados apenas pelo lançamento de novos produtos, mas pela capacidade das empresas em gerar evidências técnicas de campo, capacitar suas equipes e transformar a tecnologia em resultados práticos e rentáveis para o produtor, afirma Larissa. Segundo a Anpii-Bio, as limitações atuais do setor devem ser encaradas como oportunidades, especialmente na distribuição e no serviço prestado ao agricultor. “Portanto, a próxima curva de crescimento do mercado de bioinsumos dependerá menos do aumento bruto de volume e mais da especialização técnica que assegura o uso adequado, a confiança e a recompra”, avalia Larissa.
Dados da CropLife apontam que a área tratada com produtos biológicos no país alcança 194 milhões de hectares e o faturamento da indústria somou R$ 6,2 bilhões, em 2025 — valor focado em biodefensivos e inoculantes para fixação de nitrogênio e solubilização de fósforo, sem considerar produção off-farm, bioestimulantes ou semioquímicos.
Amália Borsari, da CropLife, diz que R$ 132 milhões foram investidos pela indústria em pesquisa e desenvolvimento, em 2024. “Contudo, o segmento enfrenta desafios regulatórios e de fiscalização, sendo indispensável a manutenção de critérios técnicos baseados em risco para garantir segurança jurídica, coibir produtos sem padrão e assegurar a adequada diferenciação para o produtor”, ressalta Amalia.
Amália complementa a visão do mercado de bioinsumos afirmando que o setor agrícola atravessa uma mudança estrutural voltada a produzir mais com menor impacto, seja no combate à resistência de pragas e doenças, na necessidade de menor dependência de fertilizantes importados e nas exigências regulatórias internacionais. “Esse cenário responde também às pressões dos consumidores por sustentabilidade e rastreabilidade. Nesse contexto, o Brasil destaca-se como um ambiente propício e protagonista internacional para a validação e adaptação de tecnologias biológicas tropicais”, afirma Larissa.
Caso Embrapa
O processo de disponibilização de ativos biológicos na Embrapa foi apresentado por Carina Gomes Rufino, chefe de Transferência de Tecnologias da Embrapa Soja. Segundo ela, a Empresa vem consolidando o modelo de inovação aberta, por meio de codesenvolvimento, consórcios e arranjos público-privados e alinhamento de expectativas de negociação com o setor privado.
As parcerias são amparadas pela Lei de Inovação e pelo Marco Legal de Ciência e Tecnologia, arcabouços jurídicos que garantem segurança às negociações e asseguram o retorno aos recursos obtidos via royalties diretamente aos núcleos e equipes de pesquisa geradoras. O portifólio da Embrapa Soja, afirma Carina, fundamenta-se em diversas coleções de microrganismos multifuncionais, vírus entomopatogênicos, fungos e pesquisas recentes com óleos essenciais.
Neste cenário, o codesenvolvimento dos ativos abrange acordos e estratégias de gestão da inovação que contemplam discussões de propriedade intelectual, programas de inovação aberta com startups e empresas privadas. “A Embrapa vem trabalhando intensamente os fluxos de inovação aberta, o que envolve quebrar paradigmas em termos de estruturação de parceria, de modelagem de negócio, de acesso a mercado, de abertura dos nossos laboratórios para que outras empresas venham trabalhar conjuntamente”, diz.
O gerenciamento dessas parcerias envolve tratativas sobre propriedade intelectual, segredo industrial, licenciamento e valoração, com o objetivo de transformar o patrimônio biológico e o conhecimento científico em diferencial competitivo para o agronegócio, explica Carina. “Pensamos em formas diferente de atuar e de desenvolver tecnologias na nossa relação com os parceiros e na construção do mercado”, diz.
Proteção às inovações
A proteção das inovações biotecnológicas no País é regida pela Lei da Propriedade Industrial, cabendo ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) — autarquia federal vinculada ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio — e também a concessão de direitos de propriedade industrial, como patentes e marcas. O tema foi abordado por Sérgio Bernardo, do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). Bernardo explica que os parâmetros de proteção são balizados pela Lei de Propriedade Intelectual (LPI). “Além de cumprir os requisitos de novidade, atividade inventiva e aplicação industrial, os pedidos exigem atenção a normas complementares e à suficiência descritiva”, diz.
No caso dos bioinsumos, há exceções em relação à patenteabilidade de microrganismos. Bernardo afirma que os pedidos de patente cuja proteção recai sobre microrganismos necessitam passar por uma série de etapas. “Primeiro, é preciso realizar uma busca prévia no estado da técnica para verificar se o objeto da invenção cumpre os requisitos de novidade e atividade inventiva, verificar se a invenção, no todo ou em parte, recai sobre alguma das restrições à patenteabilidade, se a invenção recai sobre um microrganismo não natural (OGM), entre outros cuidados”, ressalta.
A Relare é promovida pela Embrapa, em parceria com a Associação Nacional de Promoção e Inovação da Indústria de Biológicos (ANPiiBio) e com a CropLife Brasil, e com o apoio dos Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCT MicroAgro) e da Fundação Araucária. (Assessoria de Imprensa Embrapa Soja)