Evolução das coperativas-escola de Colégios Agrícolas no Paraná
FOTO: Samuel Milléo Filho / Gerência de Comunicação e Marketing Sistema Ocepar*Profissionais do Sistema Ocepar
A evolução das cooperativas-escola nos colégios agrícolas do Paraná demonstra um ciclo claro de construção, descontinuidade e retomada qualificada, refletindo mudanças institucionais e, sobretudo, diferentes visões de política pública ao longo do tempo.
Os colégios agrícolas são um espaço de formação técnica fundamental para o agronegócio brasileiro e, em especial, para o Paraná, onde existem atualmente 31 unidades em operação. Destas, 22 contam com cooperativas-escola em funcionamento, em conformidade com a legislação instituída em 2023.
Nas cooperativas do Paraná e em entidades parceiras, há diversos casos de profissionais que iniciaram suas trajetórias técnicas nesses ambientes, a exemplo de José Roberto Ricken, presidente-executivo do Sistema Ocepar; Manfred Dasenbrock, presidente da Central Sicredi PR/SP/RJ; Willem Berend Bouwman, presidente da Castrolanda; Norberto Ortigara, Secretário da Fazenda; Silvio Krinski, coordenador de Desenvolvimento Técnico da Ocepar; além de inúmeros outros dirigentes e executivos atuantes no cooperativismo paranaense.
O Colégio Agrícola Estadual Olegário Macedo, em Castro, exemplifica essa tradição: são 90 anos dedicados à qualificação profissional para a sociedade e, fundamentalmente, para o meio rural paranaense.
As primeiras cooperativas-escola surgiram em 1968, em municípios como Castro, Guarapuava, Clevelândia e Apucarana, consolidando um modelo pioneiro de ensino baseado na vivência prática do cooperativismo. Ao longo das décadas seguintes, novas unidades foram constituídas, expandindo o modelo pelo estado e fortalecendo o elo entre ensino técnico e atividades produtivas. A formalização conceitual ocorreu em 1982, por meio da Resolução nº 23, do Conselho Nacional de Cooperativismo, que estabeleceu as diretrizes pedagógicas dessas organizações com a participação ativa dos estudantes sob orientação docente.
A partir dos anos 2000, o Sistema Ocepar assumiu papel central na estruturação e no fortalecimento das cooperativas-escola, em parceria com o Governo do Estado. Esse período representou o ápice do modelo, com ações de organização institucional, padronização estatutária, regularização jurídica e capacitação técnica. Destacam-se as visitas diagnósticas realizadas em 2001, a implantação de planos de ação, a formação de professores como multiplicadores e o uso de ferramentas de gestão. Paralelamente, iniciativas como o Ecoopeagri e o programa "Sescoop vai à Escola" mobilizaram milhares de participantes, disseminando a cultura cooperativista por quase toda a rede de colégios agrícolas estadual.
Entretanto, esse ciclo foi interrompido a partir de 2009, em razão de alterações normativas promovidas pelo Governo do Estado. A Resolução nº 2.699/2009 determinou que as receitas da comercialização da produção escolar fossem centralizadas diretamente na conta única do Estado, retirando das cooperativas a gestão financeira. Essa medida inviabilizou a autonomia operacional das entidades e descaracterizou a gestão protagonizada pelos próprios alunos e pela comunidade escolar. Consequentemente, muitas cooperativas-escola reduziram suas atividades, entraram em processo de liquidação ou foram extintas.
Entre 2009 e o início da década de 2020, sucederam-se tentativas e diálogos com pouco avanço prático. O cenário mudou a partir de 2022, quando reuniões entre a Ocepar, o vice-governador Darci Piana e os secretários da Educação e da Agricultura deram início à formulação de um novo marco legal.
A inflexão decisiva ocorreu com a sanção da Lei Estadual nº 21.554/2023, que restabeleceu a essência do cooperativismo educacional: garantiu personalidade jurídica própria às cooperativas-escola, assegurou autonomia operacional e autorizou a exploração de atividades econômicas vinculadas ao projeto pedagógico. O novo arcabouço assegura que as receitas geradas sejam reinvestidas diretamente nas instituições de ensino, fortalecendo a integração entre ciclo produtivo, prática de gestão e aprendizagem.
Esse reposicionamento, coordenado conjuntamente pela Secretaria de Estado da Educação (Seed), Secretaria da Agricultura e do Abastecimento (Seab) e Sistema Ocepar, já apresenta resultados expressivos: dos 31 colégios agrícolas da rede estadual, 22 já operam sob o novo modelo e os demais avançam em seus processos de implantação.
Os indicadores produtivos e financeiros confirmam a eficácia da medida. No Colégio Agrícola de Castro, a cooperativa-escola registrou receita aproximada de R$ 2,3 milhões em 2025, com produção anual que alcança cerca de 2 mil litros de leite por dia, mil toneladas de milho, 300 toneladas de soja e 500 suínos. Os recursos são integralmente reinvestidos no colégio, viabilizando melhorias estruturais, aquisição de insumos e modernização tecnológica.
O Paraná consolida, assim, uma nova geração de cooperativas-escola caracterizada por gestão profissionalizada, formação continuada, controle por indicadores, conexão direta com o mercado e integração com o Sistema Ocepar. Esses espaços proporcionam aos estudantes o exercício prático da tomada de decisões, da governança e da responsabilidade coletiva.
Nesse contexto, o termo de cooperação firmado entre Sistema Ocepar, Seed e Seab constitui um pilar estratégico para a capacitação de professores, dirigentes e cooperados. O Sescoop/PR tem oferecido suporte aos processos assembleares, à autogestão e ao acompanhamento de indicadores econômico-financeiros, enquanto o Conselho da Ocepar fomenta parcerias com cooperativas agropecuárias, de crédito, de infraestrutura e de serviços.
Destaca-se também a atuação da Seed na condução desse processo, em especial por meio do coordenador dos Colégios Agrícolas Florestais do Estado do Paraná, Renato Gondin, e do analista técnico, Edson Pellegrini. O workshop estratégico realizado em 6 de agosto, na sede do Sistema Ocepar, reuniu cerca de 80 representantes dos colégios agrícolas e lideranças do setor, alinhando as diretrizes operacionais dessa nova fase.
Mais do que o resgate de um modelo histórico, o momento consolida uma estrutura sustentada por base legal sólida, governança institucional e integração sistêmica. O desafio para os próximos anos reside em expandir as parcerias e assegurar que cada cooperativa-escola permaneça como um polo permanente de inovação, cidadania e formação de lideranças para o cooperativismo e para o Paraná.
*Artigo de autoria de Robson Mafioletti, João Gogola, Diogo Tavares, Jessé Aquino, Eliane Goulart, Mariana Balthazar, Claudiomiro Rodrigues, Marlon Tecchio Dreher, Rogério Croscato, Daniely A. Silva, José Ronkoski, Joice Lesniowski e Luciane Gonçalves.
*Profissionais do Sistema Ocepar
A evolução das cooperativas-escola nos colégios agrícolas do Paraná demonstra um ciclo claro de construção, descontinuidade e retomada qualificada, refletindo mudanças institucionais e, sobretudo, diferentes visões de política pública ao longo do tempo.
Os colégios agrícolas são um espaço de formação técnica fundamental para o agronegócio brasileiro e, em especial, para o Paraná, onde existem atualmente 31 unidades em operação. Destas, 22 contam com cooperativas-escola em funcionamento, em conformidade com a legislação instituída em 2023.
Nas cooperativas do Paraná e em entidades parceiras, há diversos casos de profissionais que iniciaram suas trajetórias técnicas nesses ambientes, a exemplo de José Roberto Ricken, presidente-executivo do Sistema Ocepar; Manfred Dasenbrock, presidente da Central Sicredi PR/SP/RJ; Willem Berend Bouwman, presidente da Castrolanda; Norberto Ortigara, Secretário da Fazenda; Silvio Krinski, coordenador de Desenvolvimento Técnico da Ocepar; além de inúmeros outros dirigentes e executivos atuantes no cooperativismo paranaense.
O Colégio Agrícola Estadual Olegário Macedo, em Castro, exemplifica essa tradição: são 90 anos dedicados à qualificação profissional para a sociedade e, fundamentalmente, para o meio rural paranaense.
As primeiras cooperativas-escola surgiram em 1968, em municípios como Castro, Guarapuava, Clevelândia e Apucarana, consolidando um modelo pioneiro de ensino baseado na vivência prática do cooperativismo. Ao longo das décadas seguintes, novas unidades foram constituídas, expandindo o modelo pelo estado e fortalecendo o elo entre ensino técnico e atividades produtivas. A formalização conceitual ocorreu em 1982, por meio da Resolução nº 23, do Conselho Nacional de Cooperativismo, que estabeleceu as diretrizes pedagógicas dessas organizações com a participação ativa dos estudantes sob orientação docente.
A partir dos anos 2000, o Sistema Ocepar assumiu papel central na estruturação e no fortalecimento das cooperativas-escola, em parceria com o Governo do Estado. Esse período representou o ápice do modelo, com ações de organização institucional, padronização estatutária, regularização jurídica e capacitação técnica. Destacam-se as visitas diagnósticas realizadas em 2001, a implantação de planos de ação, a formação de professores como multiplicadores e o uso de ferramentas de gestão. Paralelamente, iniciativas como o Ecoopeagri e o programa "Sescoop vai à Escola" mobilizaram milhares de participantes, disseminando a cultura cooperativista por quase toda a rede de colégios agrícolas estadual.
Entretanto, esse ciclo foi interrompido a partir de 2009, em razão de alterações normativas promovidas pelo Governo do Estado. A Resolução nº 2.699/2009 determinou que as receitas da comercialização da produção escolar fossem centralizadas diretamente na conta única do Estado, retirando das cooperativas a gestão financeira. Essa medida inviabilizou a autonomia operacional das entidades e descaracterizou a gestão protagonizada pelos próprios alunos e pela comunidade escolar. Consequentemente, muitas cooperativas-escola reduziram suas atividades, entraram em processo de liquidação ou foram extintas.
Entre 2009 e o início da década de 2020, sucederam-se tentativas e diálogos com pouco avanço prático. O cenário mudou a partir de 2022, quando reuniões entre a Ocepar, o vice-governador Darci Piana e os secretários da Educação e da Agricultura deram início à formulação de um novo marco legal.
A inflexão decisiva ocorreu com a sanção da Lei Estadual nº 21.554/2023, que restabeleceu a essência do cooperativismo educacional: garantiu personalidade jurídica própria às cooperativas-escola, assegurou autonomia operacional e autorizou a exploração de atividades econômicas vinculadas ao projeto pedagógico. O novo arcabouço assegura que as receitas geradas sejam reinvestidas diretamente nas instituições de ensino, fortalecendo a integração entre ciclo produtivo, prática de gestão e aprendizagem.
Esse reposicionamento, coordenado conjuntamente pela Secretaria de Estado da Educação (Seed), Secretaria da Agricultura e do Abastecimento (Seab) e Sistema Ocepar, já apresenta resultados expressivos: dos 31 colégios agrícolas da rede estadual, 22 já operam sob o novo modelo e os demais avançam em seus processos de implantação.
Os indicadores produtivos e financeiros confirmam a eficácia da medida. No Colégio Agrícola de Castro, a cooperativa-escola registrou receita aproximada de R$ 2,3 milhões em 2025, com produção anual que alcança cerca de 2 mil litros de leite por dia, mil toneladas de milho, 300 toneladas de soja e 500 suínos. Os recursos são integralmente reinvestidos no colégio, viabilizando melhorias estruturais, aquisição de insumos e modernização tecnológica.
O Paraná consolida, assim, uma nova geração de cooperativas-escola caracterizada por gestão profissionalizada, formação continuada, controle por indicadores, conexão direta com o mercado e integração com o Sistema Ocepar. Esses espaços proporcionam aos estudantes o exercício prático da tomada de decisões, da governança e da responsabilidade coletiva.
Nesse contexto, o termo de cooperação firmado entre Sistema Ocepar, Seed e Seab constitui um pilar estratégico para a capacitação de professores, dirigentes e cooperados. O Sescoop/PR tem oferecido suporte aos processos assembleares, à autogestão e ao acompanhamento de indicadores econômico-financeiros, enquanto o Conselho da Ocepar fomenta parcerias com cooperativas agropecuárias, de crédito, de infraestrutura e de serviços.
Destaca-se também a atuação da Seed na condução desse processo, em especial por meio do coordenador dos Colégios Agrícolas Florestais do Estado do Paraná, Renato Gondin, e do analista técnico, Edson Pellegrini. O workshop estratégico realizado em 6 de agosto, na sede do Sistema Ocepar, reuniu cerca de 80 representantes dos colégios agrícolas e lideranças do setor, alinhando as diretrizes operacionais dessa nova fase.
Mais do que o resgate de um modelo histórico, o momento consolida uma estrutura sustentada por base legal sólida, governança institucional e integração sistêmica. O desafio para os próximos anos reside em expandir as parcerias e assegurar que cada cooperativa-escola permaneça como um polo permanente de inovação, cidadania e formação de lideranças para o cooperativismo e para o Paraná.
*Artigo de autoria de Robson Mafioletti, João Gogola, Diogo Tavares, Jessé Aquino, Eliane Goulart, Mariana Balthazar, Claudiomiro Rodrigues, Marlon Tecchio Dreher, Rogério Croscato, Daniely A. Silva, José Ronkoski, Joice Lesniowski e Luciane Gonçalves