Energia elétrica, insumo estratégico nas cooperativas: da produção à agregação de valor
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FOTO: Copel*Profissionais do Sistema Ocepar
O cooperativismo paranaense consolidou-se como um dos principais motores do agronegócio, sustentado, em sua origem, por ganhos de escala na aquisição e fornecimento de insumos e no recebimento e comercialização da produção. Esse modelo, no entanto, evoluiu de forma consistente ao longo das últimas décadas. As cooperativas deixaram de atuar apenas como intermediadoras e passaram a ocupar papel central na organização das cadeias produtivas, avançando de maneira estruturada na industrialização e na agregação de valor.
Atualmente, o ramo agropecuário reúne 82 cooperativas, sendo 21 cooperativas escola de colégios agrícolas; de fato para contabilizar o recebimento da safra, industrialização e comercialização são 61 cooperativas. Elas respondem por aproximadamente 82% da receita global do cooperativismo no estado, movimentando cerca de R$ 183,0 bilhões. Os cerca de 240 mil cooperados são responsáveis por 65% da produção de grãos e 45% da proteína animal do Paraná. Desse volume, aproximadamente metade já passa por algum nível de industrialização em mais de 150 unidades agroindustriais, evidenciando o grau de maturidade e integração do sistema.
Essa transformação produtiva trouxe consigo uma mudança estrutural relevante. Se no passado o principal insumo era a matéria-prima, especialmente os cereais e oleaginosas, hoje a dinâmica da produção revela uma nova centralidade: a energia elétrica. Mais do que um custo operacional, a energia passou a ocupar papel determinante na viabilização da transformação produtiva e, consequentemente, na capacidade de agregação de valor das cooperativas.
A cadeia produtiva do cooperativismo moderno ilustra com clareza essa dependência. Os cultivos como soja, milho, trigo, cevada, café, cana-de-açúcar são processados em alimentos ou transformados em insumos industriais, como ração. Essa ração retorna às propriedades e viabiliza a produção de proteína animal — aves, suínos, leite e peixes —, que posteriormente é encaminhada às agroindústrias para abate, processamento e industrialização. O resultado deste processamento, por sua vez, exige sistemas de refrigeração, conservação e logística em cadeia fria. Em todas essas etapas, a energia elétrica é indispensável, não apenas para garantir o funcionamento, mas para assegurar escala, qualidade e eficiência.
Os dados de consumo energético reforçam essa centralidade. Aproximadamente 49% da energia elétrica consumida pelas cooperativas está concentrada na industrialização de produtos de origem animal, especialmente em função da cadeia do frio. Outros 33% estão associados à industrialização de produtos de origem vegetal, como o esmagamento de soja, moagem de trigo e processamento de milho. A armazenagem de grãos responde por cerca de 15%, principalmente em função dos sistemas de aeração e conservação, enquanto apenas 3% estão relacionados a atividades administrativas. Esses números evidenciam que a energia está diretamente vinculada ao núcleo da geração de valor.
Gráfico 01. Perfil de consumo de energia elétrica por cadeia de produção, 2025.

Essa dependência, no entanto, não se limita às agroindústrias. Ela já é crítica dentro da própria porteira. Os sistemas produtivos evoluíram, tornaram-se mais intensivos, tecnificados e eficientes, mas também significativamente mais dependentes de energia elétrica em quantidade e qualidade.
Na avicultura moderna, por exemplo, especialmente em aviários do tipo Dark House, a energia é elemento vital para a manutenção das condições de ambiência. Uma interrupção de apenas cinco minutos já pode iniciar perdas produtivas, e um período de aproximadamente quinze minutos sem energia pode levar à mortalidade total do lote, em função da falha nos sistemas de ventilação e controle térmico. Na piscicultura, a dependência está diretamente ligada à oxigenação da água: a ausência de energia pode ser tolerada por cerca de quinze minutos no período noturno e quarenta minutos durante o dia. Na suinocultura, sistemas automatizados de alimentação e ambiência suportam aproximadamente duas horas sem fornecimento elétrico. Já na produção de leite, embora haja maior tolerância, o limite gira em torno de três horas, considerando os sistemas de ordenha e refrigeração.
Esses exemplos demonstram que a energia elétrica passou a ser um fator crítico de continuidade produtiva e bem-estar animal. Sua ausência não implica apenas redução de eficiência, mas pode resultar em perdas totais de produção em intervalos de tempo extremamente curtos.
Ao mesmo tempo, a agregação de valor — elemento central da estratégia do cooperativismo — está diretamente condicionada à disponibilidade de energia. No Paraná, cerca de 48% da receita das cooperativas já é proveniente de produtos industrializados, enquanto 33% ainda se referem a produtos não industrializados e 19% ao fornecimento de insumos. Esse perfil evidencia a relevância crescente da industrialização, que, por sua vez, é intensiva em energia.
Quanto maior o nível de transformação, maior a dependência energética, maior a exigência por qualidade no fornecimento e maior o impacto da energia sobre a estrutura de custos e margens. A energia elétrica, nesse contexto, deixa de ser apenas um componente operacional e passa a ser um fator estruturante da competitividade.
O crescimento do consumo energético confirma essa tendência. Entre 2018 e 2025, o consumo das cooperativas agro industrializadas saltou de aproximadamente 1,5 mil GWh/ano para cerca de 2,3 mil GWh/ano. As projeções indicam um crescimento adicional de 33% até 2032, com consumo superior a 3,0 mil GWh anuais. Esse aumento reflete diretamente a expansão das atividades industriais e a intensificação tecnológica das operações.
GRAFICO 02. Consumo histórico e previsão de consumo de energia elétrica (GWh/ano), 2025.

Paralelamente, observa-se uma mudança significativa no modelo de contratação de energia. Atualmente, cerca de 93% do consumo das cooperativas ocorre no mercado livre de energia, enquanto apenas 2% permanecem no mercado cativo e 5% é atendido por geração própria. Esse cenário demonstra um avanço importante na gestão energética, mas também evidencia o aumento da complexidade na tomada de decisão.
Nesse novo contexto, o papel da energia dentro das organizações também se transforma. O profissional responsável pela área deixa de ter uma atuação predominantemente operacional, restrita ao pagamento de faturas, e passa a assumir uma função estratégica. Sua atuação envolve o planejamento do suprimento energético para suportar a expansão industrial, a gestão de contratos no mercado livre, a mitigação de riscos associados a preço e fornecimento, além da busca por eficiência e alternativas de geração.
Além da disponibilidade, a qualidade da energia também se torna um fator crítico, especialmente nas agroindústrias. Plantas industriais altamente automatizadas são sensíveis não apenas a interrupções, mas também a eventos como afundamentos de tensão e variações momentâneas. Esses fenômenos podem causar paradas de linha, desarme de equipamentos, perda de sincronismo em processos contínuos e redução da produtividade, muitas vezes sem que haja uma interrupção total do fornecimento. Trata-se de perdas silenciosas, mas economicamente relevantes.
Diante desse cenário, a gestão da energia passa a exigir o mesmo nível de atenção dedicado a outras áreas estratégicas, como produção, logística e comercialização. Torna-se fundamental incorporar a energia ao planejamento de longo prazo, monitorar o consumo por processo, investir em eficiência energética e avaliar alternativas de diversificação da matriz, como biogás, biomassa e geração solar.
A relevância do tema já está refletida no planejamento estratégico do cooperativismo paranaense. No âmbito do Plano Paraná Cooperativo (PRC), conduzido pelo Sistema Ocepar, a energia está inserida no Tema Estratégico 09 – Infraestrutura, por meio do Projeto 24 – Gestão de Energia. Essa iniciativa tem como objetivo apoiar o desenvolvimento de ações voltadas à geração, fornecimento, gestão e eficiência energética, com foco na redução de custos, melhoria da qualidade do fornecimento, diversificação da matriz e ampliação do uso de fontes renováveis.
Tendo em vista este trabalho de agroindustrialização do cooperativismo, convidamos a diretoria da Copel para participar das reuniões pré-assembleia que ocorreram nos Encontros de Núcleos Cooperativos, entre os dias 9 e 12 de março, no interior do Estado, e apresentamos propostas de melhoria para solucionar os constantes problemas com o fornecimento de energia, que estão impactando nas atividades das cooperativas.
Esse direcionamento reforça que a energia deixou de ser uma variável operacional para se consolidar como um dos pilares do desenvolvimento sustentável do cooperativismo.
O cooperativismo agropecuário vive, portanto, um novo ciclo de transformação. A industrialização, a intensificação produtiva e a busca por maior agregação de valor colocam a energia elétrica no centro das decisões estratégicas. Mais do que garantir o funcionamento das operações, a energia passa a definir os limites e as possibilidades de crescimento.
Nesse cenário, a capacidade de gerir energia com eficiência, qualidade e visão estratégica será determinante para o futuro das cooperativas. Porque, no contexto atual, a competitividade não depende apenas do que se produz, mas de como — e com que energia — se produz.
* Silvio Krinski –
*Bruna Mayer –
*Robson Mafioletti –
*José Roberto Ricken –