Pesquisa mostra avanços e gargalos da inovação nas coops brasileiras
A inovação já faz parte da agenda de boa parte das cooperativas brasileiras, mas transformar intenção em prática ainda depende de estrutura, recursos e conhecimento. Os resultados da 3ª Pesquisa de Inovação no Cooperativismo Brasileiro, realizada pelo Sistema OCB com 1.340 cooperativas de todas as regiões do país, foram divulgados no dia 30 de setembro. O levantamento acompanha a evolução do movimento desde 2021 e, nesta edição, amplia o olhar para temas como maturidade, inteligência artificial, inovação aberta, pesquisa científica e acesso a mecanismos de fomento.
Um dos principais retratos da pesquisa está na relação entre cultura e execução. Embora 77% das cooperativas se considerem abertas à inovação, 44% desse grupo relatam enfrentar resistências internas. O levantamento também mostra que a abertura cultural está associada a uma maior capacidade de colocar projetos em prática: entre as cooperativas classificadas como muito abertas e inovadoras, 47,8% implementaram seis ou mais projetos nos últimos dois anos. Entre as moderadamente conservadoras, o percentual foi de 8,2%.
A estrutura também pesa. Entre as cooperativas que contam com uma área dedicada e equipe para inovação, 69,6% implementaram seis ou mais projetos no período analisado. O índice cai para 17,5% quando pessoas acumulam funções e para 4,1% entre aquelas que não possuem nenhuma estrutura dedicada.
“A pesquisa mostra que o cooperativismo já reconhece a importância da inovação, mas ainda existe uma distância entre querer inovar e criar as condições para que isso aconteça. Cultura, liderança, estrutura e orçamento precisam caminhar juntos para que as iniciativas deixem de ser pontuais e passem a gerar resultados de forma contínua”, afirma Guilherme Costa, gerente do Núcleo de Inteligência e Inovação do Sistema OCB.
Orçamento ainda é principal desafio
Quando perguntadas sobre os obstáculos para inovar, 51,1% das cooperativas apontaram a falta de orçamento. A resistência à mudança aparece logo depois, citada por 47,3%, seguida pela falta de conhecimento, com 35,9%. A complexidade tecnológica e a falta de interesse dos cooperados também aparecem entre os principais desafios.
O orçamento destinado ao tema ainda é limitado em boa parte das organizações. Quase metade das cooperativas (48%) afirma direcionar menos de 1% do orçamento para inovação ou não destinar recursos ao tema. Apenas 13,6% têm metas e acompanhamento formalizados.
O cenário ajuda a explicar outro dado do levantamento: 69,2% das cooperativas tiveram formação em inovação apenas de maneira pontual, por meio de ações isoladas, conversas ou nenhuma iniciativa. Apenas 30,9% contam com formação estruturada, sendo 24,6% com ações contínuas.
IA chegou, mas governança ainda precisa avançar
A inteligência artificial aparece como uma das novidades desta edição da pesquisa e revela um movimento acelerado. Atualmente, 60,9% das cooperativas já utilizam alguma solução de IA. Ao mesmo tempo, apenas 9,4% afirmam ter uma política institucional consolidada sobre o tema, enquanto 33,5% sequer discutiram a questão internamente.
O levantamento identifica ainda uma situação que merece atenção: entre as cooperativas que não possuem diretriz e ainda não discutiram o assunto, 38,2% já utilizam alguma solução de inteligência artificial.
“A inteligência artificial já deixou de ser uma pauta distante. O dado mais importante agora é entender como as cooperativas estão usando essas ferramentas, com quais objetivos e dentro de quais parâmetros. Existe uma oportunidade grande de ampliar o uso da tecnologia, mas isso precisa vir acompanhado de conhecimento, segurança e governança”, avalia Guilherme.
Fomento ainda é pouco conhecido
Outro gargalo identificado está no acesso a recursos para inovação. Quase 80% das cooperativas conhecem pouco ou nada do ecossistema de fomento: 44,3% não conhecem as possibilidades disponíveis e 35,4% estão começando a conhecê-las. Apenas 3,2% afirmam captar recursos com frequência.
A principal barreira, apontada por 56,3%, é a falta de informação sobre oportunidades. Na sequência aparecem a falta de equipe interna para captação (42,5%) e a dificuldade para elaborar projetos técnicos (37,8%).
Soluções disponíveis
A pesquisa também ajuda a direcionar a atuação do Sistema OCB. Capacitação e formação foram apontadas por 69,6% das cooperativas como a principal ação esperada do Sistema OCB, seguidas por conexão com parceiros (44,7%), boas práticas (42,7%), intercooperação (42,4%) e ferramentas (39,8%).
Parte dessas demandas já pode ser encontrada no InovaCoop, plataforma do Sistema OCB dedicada à inovação no cooperativismo. O espaço reúne cursos, e-books e trilhas de aprendizagem, cases de cooperativas, notícias e tendências, além do Radar de Financiamento, com editais e fontes de fomento. Também estão disponíveis conteúdos e metodologias relacionados a inteligência artificial, análise de dados, Design Thinking, Ideathon, facilitação e conexão com startups.
O diagnóstico chama atenção, porém, para uma questão de alcance: 58,2% das cooperativas participantes nunca acessaram o InovaCoop. Ou seja, muitas das soluções relacionadas aos desafios apontados pela pesquisa já existem, mas ainda precisam chegar a mais organizações.
“O resultado mais interessante é justamente esse encontro entre o que as cooperativas dizem precisar e o que já está disponível no InovaCoop. Temos conteúdos, ferramentas, boas práticas, informações sobre fomento e possibilidades de conexão. O próximo passo é fazer com que essas soluções cheguem a mais cooperativas e sejam incorporadas ao dia a dia delas”, destaca Guilherme.
A terceira edição da pesquisa também mostra que as cooperativas querem mais interação entre si. A mentoria entre organizações mais e menos maduras foi a ação de intercooperação mais citada, com 31,1%, seguida por rodadas de conexão para desafios comuns, com 19,8%, e conexão com ecossistemas externos, como startups, universidades e centros de pesquisa, com 17,9%. (Sistema OCB)