O paradoxo do pleno emprego e a força da integração no cooperativismo
FOTO: Cooperativa C.Vale*Leandro Macioski
O cooperativismo paranaense vive um momento de absoluto dinamismo, mas que traz consigo um paradoxo. Ao mesmo tempo em que o setor acelera rumo às metas arrojadas do Plano Paraná Cooperativo — o PRC 300/500, que projeta movimentar R$ 300 bilhões em 2027 e R$ 500 bilhões até 2031 —, ele esbarra em um dos maiores gargalos macroeconômicos da atualidade: a escassez de mão de obra.
Hoje, as cooperativas do estado são responsáveis por gerar cerca de 154 mil empregos diretos. No entanto, o setor convive com um déficit crônico de aproximadamente 10 mil vagas em aberto, concentradas majoritariamente nas atividades industriais de processamento de alimentos. Nas regiões de maior adensamento agroindustrial, como o Oeste do Paraná, a expansão de novas plantas e a força da economia local empurraram os índices para patamares de pleno emprego. Falta gente para acompanhar o ritmo do crescimento.
Diante dessa realidade, a contratação de trabalhadores estrangeiros deixou de ser uma alternativa emergencial para se consolidar como uma estratégia vital de sustentação da força de trabalho. Dados do Sistema Ocepar consolidados ao final de 2025 mostram que o ramo agropecuário do estado emprega mais de 10.500 imigrantes. Eles já representam, em média, 8,98% do quadro funcional do setor, alcançando picos impressionantes de até 28% em algumas cooperativas do Oeste. Se historicamente o fluxo era dominado por cidadãos haitianos, hoje o cenário se diversifica com a chegada expressiva de venezuelanos e profissionais de outras nações latino-americanas.
Essa transformação demográfica e corporativa traz benefícios claros, mas impõe uma série de responsabilidades operacionais e sociais. A verdadeira inclusão vai muito além da assinatura da carteira de trabalho. Ela exige investimentos robustos na superação de barreiras idiomáticas, na adaptação cultural, na qualificação técnica, no suporte à regularização documental e na habitação, além de políticas consistentes de acolhimento nas comunidades acolhedoras.
É exatamente para coordenar e potencializar essas ações que o Sistema Ocepar, por meio do Sescoop/PR, estruturou o Projeto 13: Emprega + Coop, uma das 30 iniciativas estratégicas do PRC 300/500. Sob esse guarda-chuva, destaca-se o programa Cooperativa sem Fronteiras, desenhado especificamente para articular políticas públicas e privadas de atração, retenção e integração humanizada de imigrantes, somando forças com as parcerias já existentes entre cooperativas e prefeituras.
Paralelamente, o projeto entende que a modernização dos processos internos é urgente. Por isso, propõe um programa de formação continuada voltado ao Recrutamento e Seleção 4.0 para os profissionais de Recursos Humanos do setor. O objetivo é capacitar as equipes em diagnósticos de necessidades mais precisos, ferramentas digitais avançadas, avaliação por competências e, fundamentalmente, na estruturação de vagas afirmativas e processos de inclusão.
O cooperativismo se move pelo princípio de que o desenvolvimento econômico deve caminhar lado a lado com o bem-estar social. Ao acolher, qualificar e integrar a mão de obra imigrante de forma estruturada, o Paraná não apenas supre uma demanda de mercado para atingir suas metas bilionárias; ele reafirma sua vocação de solidariedade global, transformando o desafio da escassez em um exemplo de sustentabilidade, competitividade e humanidade.
*Leandro Macioski é gerente de Desenvolvimento Humano do Sescoop/PR