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title: ENTREVISTA: Não há chance de o Brasil crescer 0%, diz Paulo Bernardo | Paraná Cooperativo
description: O Sistema OCEPAR reúne e representa as cooperativas do Paraná, promovendo desenvolvimento, capacitação e fortalecimento do cooperativismo paranaense.
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date: 2012-05-09T15:55:30Z
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> O ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, acredita que o pacote habitacional lançado na semana passada será uma das principais alavancas a garantir a nova perspectiva oficial de crescimento econômico em 2009. Enquanto analistas já falam em estagnação ou até queda no Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro ao longo do ano, o governo apenas reduziu sua projeção de aumento: de 4% para 2% "cravados", nas palavras do ministro. Um dos segredos que dariam eficácia ao pacote, de acordo com Bernardo, são as negociações para simplificar e baratear os custos da habitação, especialmente com seguradoras, cartórios e órgãos de licenciamento ambiental.
> 
> **Curitiba** - Paulo Bernardo esteve em Curitiba falando para empresários a respeito do papel do governo frente à crise mundial e, antes de seguir viagem para a Colômbia para um encontro do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), esteve na redação da Gazeta do Povo para uma conversa com repórteres e editores. Confira alguns trechos da entrevista.
> 
> **Que notícias sobre a crise o senhor trouxe para os empresários paranaenses?**
> 
> **Paulo Bernardo** - *Estive na Espanha e na Itália no mês passado e percebi que lá o pessoal está muito mais alarmado. O clima é muito ruim na Europa, principalmente depois do estouro da bolha imobiliária do Leste Europeu. É diferente do que vejo aqui - todo mundo está preocupado, mas você vê que os empresários estão com negócios andando, estão faturando, querem saber o que fazer pra enfrentar a crise. A gente nunca deve falar que o pior da crise já passou, mas é visível que as coisas estão melhorando. Estamos animados. Estive comentando a perspectiva do PIB com o \[presidente do Banco Central Henrique\] Meirelles e ele disse "pode cravar que vai dar 2%, não há a menor chance de dar zero". Os sinais que a economia está dando já são melhores, e esse programa de habitação que nós lançamos vai dar uma reação muito rápida. A tendência é as empresas contratarem com velocidade grande. A Caixa diz que vai fechar o trimestre com 150 mil contratos de financiamento de imóveis - nesse ritmo, serão 600 mil. No ano passado, foram 540 mil, dos quais 220 mil eram para imóveis novos.*
> 
> **O desemprego, especialmente em áreas específicas, não preocupa o planejamento desse programa?**
> 
> **Paulo Bernardo** - *Preocupa. O desemprego é um problema. Ele aumentou de dezembro para cá, em janeiro foi pra 8,2%, e em fevereiro para 8,5% - mas esse é o menor índice de fevereiro desde que o IBGE mede por esse critério. Estamos achando que o desemprego vai estabilizar e começar a diminuir.*
> 
> **Mas temos dados de que o subemprego cresceu, chegando a 18%, e segurou esse índice.**
> 
> **Paulo Bernardo** - *Eu acredito. Não tenho dados, mas conversei com uma fonte confiável que avaliou que haverá uma migração. O desemprego vai afetar mais o pessoal que tem mais escolaridade e renda, e menos o pessoal que tem menor qualificação e renda. Isso deve diminuir o salário médio, mas vai haver mais empregos nos setores que oferecem salários menores, como da construção civil. A FGV fez um estudo sobre nosso programa habitacional e disse que vai gerar 532 mil empregos, e que tem potencial de aumentar em 0,7 ponto percentual a evolução do PIB.*
> 
> **Esse programa é a principal ficha do governo para a crise?**
> 
> **Paulo Bernardo** - *Não. Esse programa vai abrir um espaço para o governo efetivamente diminuir o déficit habitacional. O presidente brinca que desde que ele era sindicalista já se falava no déficit de 7 milhões de moradias no país, e isso é realmente uma coisa vergonhosa*.
> 
> **O fato de o programa ser em parte financiado pelo dinheiro do FGTS, e portanto ligado ao mercado formal de trabalho, não pode atrapalhar?**
> 
> **Paulo Bernardo** - *Os subsídios serão do FGTS e do Tesouro. Uma das preocupações é que deve haver um fluxo negativo do fundo, ou seja, sair mais dinheiro do que entrar - possivelmente em 2010. Mas essas obrigações são todas garantidas pelo Tesouro. Além disso, o subsídio de famílias de até três salários mínimos é todo do Tesouro, o fundo de garantia vai só vai subsidiar famílias até seis salários. Acho que isso está sólido.*
> 
> **A flexibilização das relações entre sociedade e governo na construção de casas pode ser ampliada para outros setores? As indústrias pedem há tempo a flexibilização das leis trabalhistas, por exemplo.**
> 
> **Paulo Bernardo** - *A pergunta faz sentido, o problema é que temos que fazer isso pactuado. O governo não vai patrocinar um negócio unilateral, só porque os empresários acham que seria legal. Isso tem que vir com garantia de emprego, tem de ser conversado.*
> 
> **Os municípios tradicionalmente se queixam das dificuldades, e agora a situação piorou - tanto que a ministra Dilma Rousseff acenou com um tipo de ajuda federal. O que está sendo programado?**
> 
> **Paulo Bernardo** - *O presidente pediu para que eu fizesse um levantamento e estamos fazendo um relatório. De fato, nossa receita caiu de R$ 805 bi para R$ 757 bi. Isso é uma redução muito forte, e afeta o FPM e o FPE. Mas o FPM caiu em comparação com uma base alta. Os municípios e o governo fizeram seu orçamento antes da crise, ou seja, todo mundo fez uma suposição na economia rodando a 6,8% e jogou sua previsão lá em cima. Sabemos de prefeitos que assumiram o otimismo e aumentaram despesas. Eles vão ter que adequar o orçamento. Nós fizemos um contingenciamento grande, de R$ 21 bilhões, já anunciamos que vamos usar o projeto piloto de investimento, o que significa diminuir o superávit primário em R$ 15 bilhões - só aí já vão mais de R$ 30 bilhões de margem. Os ministros estão brigando com a gente, mas tem de ser feito. Se quisermos manter uma imagem de austeridade do governo, tem que fazer corte - e é inevitável que os prefeitos façam ajustes também.*
> 
> **A definição de sedes da Copa do Mundo pode balizar investimentos do governo federal?**
> 
> **Paulo Bernardo** - *Vai balizar. Já temos alguns estudos para apoiar o esforço em receber a Copa do Mundo - mas "apoiar" não significa que o governo federal vai organizar. Infra-estrutura do esporte é responsabilidade da natureza privada, da CBF com as empresas. As exigências de mobilidade urbana, de corredores de transporte, acesso aos estádios, aeroporto, nós achamos que é uma tarefa típica do poder público. Podemos apoiar financiando obras, por exemplo. O BNDES pode emprestar, de acordo com as garantias.*
> 
> **E os esforços do governo em diminuir o spread? Até agora a melhora do crédito foi tímida.**
> 
> **Paulo Bernardo** - *Essa semana voltamos a ter o volume de crédito pré-crise, as taxas estão compatíveis com aquele período. Isso é uma boa notícia. Mas também posso dizer que perdemos cinco meses para voltar onde estávamos. Ou seja, o crédito ainda é insuficiente e caro, com média de 51% ao ano para pessoa física. Nós precisamos encontrar um jeito de ter crédito civilizado no Brasil. As medidas que foram adotadas dão condições aos bancos menores de fazer captação, apoiamos o cadastro positivo, mas ainda temos mesmo é que achar caminhos que barateiem o crédito. A impaciência do presidente é essa. Mas não tem uma saída única, estamos trabalhando nisso - a Selic baixando já ajuda e vai empurrando dinheiro para o mercado.*
> 
> **Ainda temos sinais negativos na economia, como as demissões em alguns setores e a queda na previsão de consumo de energia elétrica. Em que se baseia a perspectiva de crescimento de 2%, quando o mercado fala em estagnação ou taxa negativa?**
> 
> **Paulo Bernardo** - *Sobre o setor metalúrgico, teve empresa que entrou em pânico, deu férias coletivas, dispensou gente e depois teve de contratar hora extra. Pode ser que \[o crescimento do PIB\] não chegue aos 2%, que você chama de muito otimistas, mas será próximo disso. Quem fala que o crescimento vai dar zero são analistas que têm muita influência da bolsa de valores. O agronegócio, salvo as perdas provocadas pela seca, está bem e se recuperando. E tem outra: pode ter a crise que tiver, mas vai ter consumo de alimentos. Antes da crise, o diagnóstico era de estoques baixos, e isso não mudou.*
> 
> **As relações do Mercosul retrocederam com a crise, com o protecionismo argentino?**
> 
> **Paulo Bernardo** - *O conflito com os ruralistas lá acabou afetando, mas não podemos nos meter. Eles têm que resolver por lá. Mas a volta do protecionismo é ruim como regra geral. Na Europa estão falando coisas horríveis, a estabilidade está muito prejudicada por causa disso, um querendo se proteger do outro. (Gazeta do Povo)*

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