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Cooperativismo - os clássicos

PARTE I

No estudo do Direito Cooperativo, tendo em vista sua aplicação prática, muitas vezes é necessário que se recorra às origens da norma, isto é, à razão ou a busca do sentido daquele texto ou comando. Toda norma tem um porquê, um princípio, uma base que sustenta a estrutura lógica do texto legal. Esta “busca das origens” se consegue entendendo o pensamento clássico que originou a doutrina do cooperativismo, até nossos dias.

Não é nada incomum se ler nos livros e artigos que o cooperativismo é uma “terceira via”, pois é uma doutrina que apresenta um sistema econômico-social paralelo ao socialismo e ao capitalismo. No entanto, a doutrina cooperativa é anterior a toda esta discussão dos efeitos danosos do capitalismo selvagem, que surge materializada no século XIX, após a apresentação escrita das ideias de Max e Engels, no Manifesto Comunista de 1848.

Na verdade, o cooperativismo é contemporâneo da moderna civilização humana, surge antes até da revolução capitalista, iniciada no do século XVIII. Diva Pinho, na sua obra clássica de cooperativismo, apontava as reduções jesuíticas do século XVII como um exemplo de sociedade cooperativa, no Brasil. Também no século XVII, o autor espanhol Garteiz Aurrecoa cita as experiências do modelo cooperativo do holandês Peter Cornelius Plockboy e mais tarde um seu seguidor o inglês John Bellers. Naturalmente, tanto a experiência brasileira quanto a norte-americana estão profundamente ligadas à religião. No Brasil, o catolicismo, pelas mãos dos padres jesuítas e na América do Norte pela doutrina inglesa de George Fox – idealizador dos Quakers[1], regrada pelos fundamentos da moral cristã protestante.

Diferentemente do Brasil, onde não se tem notícias de textos teóricos específicos sobre a razão da filosofia associativa das reduções, senão a própria doutrina cristã das pequenas comunidades, encontra-se na obra de John Bellers (Proposição para a criação de Associações de Trabalho), de 1695, com base nos estudos anteriores de Plockboy, um importante marco teórico escrito sobre a união de um grupo delimitado, com objetivo comum (que atendia a dimensão econômica de sobrevivência).

Por óbvio que se está diante de um tipo de sociedade humana “fechada” que criou esta forma de convívio como autodefesa no ambiente hostil, presente nos primeiros anos das “colônias da Nova América”. Todavia, está presente a ideia de associações de grupos de trabalho que cooperavam, não havendo circulação de dinheiro, mas sim bônus que eram utilizados no consumo. Aqui se tem a essência da união de um grupo numa dimensão econômica, em cuja estrutura cada um é responsável pelo sucesso coletivo do empreendimento, que deve atender a todos. Parece que estamos lendo a “exposição de motivos” do caput do artigo 4ᵒ, da lei 5.764/71, que foi escrita 276 anos depois.

É por isto que se diz que o cooperativismo é uma doutrina, uma vez que possui bases filosóficas estáveis que darão sustentáculo, na forma de princípios, à criação dos textos legais reguladores da sociedade cooperativa e mesmo do sistema.

Outro exemplo fundacional encontra-se na obra de Robert Owen, com o título de “Povos da Cooperação”.  Este galês que viveu entre (1771 e 1858) inspirado pelas ideias de Plockboy e Bellers constituiu, a partir de 1799, em sua fábrica de Lanark (Escócia), uma estrutura humanizadora das condições de trabalho, (reduzindo a carga de trabalho dos operários e aumentando salários), se preocupando com o bem-estar e educação de seus filhos, bem como com as condições e possibilidades de consumo destes. Desta intenção de melhora das condições de vida surgiu ideia de se criar uma associação de trabalhadores que derivou para a constituição de cooperativas mistas de trabalho e consumo, nas quais o grupo de trabalhadores tinha atendida estas duas necessidades. Em 1835 Robert Owen constituiu em Londres uma Associação Universal com objetivo de alterar a mentalidade da sociedade inglesa apresentando como alternativa o “sistema econômico cooperativo” estabelecido sobre bases racionalistas e pacifistas.

Nestas estruturas associativas cooperativas de Owen encontra-se a ideia da propriedade privada coletiva, diferente da propriedade privada individual e da propriedade coletiva estatal, cuja estrutura será de exploração comunitária, regidas pelo princípio da solidariedade. O texto do artigo 3da Lei n5.764/71, estabelece a propriedade coletiva privada e a exploração coletiva. E por isto que os artigos 3e 4são o centro da definição estrutural da cooperativa brasileira, pois estabelecem a base sobre a qual se construirá a estrutura societária. A ideia da associação humana, na forma cooperativa, surgiu com estes dogmas. Nesta estrutura reside a importância da matriz que instaura o modelo de estrutura cooperativa como empreendimento econômico-social que servirá de base para Rochdale em 1844. A Europa e sobretudo a Inglaterra possuíam suficientes condições para desenvolver o cooperativismo, pois além de sofrer as agruras dos efeitos do capitalismo selvagem possuíam teóricos sustentando um novo modelo, a exemplo do economista William King que iniciou a edição em 1829, através de uma revista mensal (O Cooperador), que difundia e aperfeiçoava as ideias de Robert Owen.

Para a formação do pensamento cooperativo também não se deve esquecer as ideias associativas e comunitárias de Charles Fourier que teorizava uma forma prática de exercício e funcionamento de uma estrutura econômica coletiva (falanstérios). Inclusive houve um ensaio de falanstério no litoral de Santa Cataria, próximo a São Francisco do Sul e Joinville em 1841. Fourier era contrário à proximidade com o Poder Público ou econômico, sustentava que só haveria sucesso com uma independência da cooperativa, o que se lê hoje no artigo 38 em relação a supremacia assemblear e na questão do direito personalíssimo do voto cooperado (artigo 42, parágrafo 2ᵒ). Razão que justifica a necessidade do comando constitucional do artigo 5ᵒ, inciso XVII, da Constituição Federal de 1988, que afastou a interferência estatal nas cooperativas brasileiras.

Deve-se também a Fourier e a seus discípulos, entre eles Víctor Considérant, o aperfeiçoando da estrutura da diferenciação participativa dos cooperados, isto é, a distribuição de resultados (excedentes) e custos não por capital empregado e sim por participação e operação com a cooperativa, ideia defendida mais tarde por Charles Howarth (um dos pioneiros da cooperativa de Rochdale). Qualquer semelhança com o artigo 4ᵒ, inciso  VII, não será de forma alguma coincidência!

Outro doutrinador basilar foi Michel Derrion (1802-1850), um discípulo de Owen, Fourier e King, que constituiu em 1835 na cidade de Lion, na França, a cooperativa de consumo “O verdadeiro e social comércio”[2]. Esta cooperativa operava sobre o sistema de “portas abertas” (livre ingresso e livre saída). O que dizer do artigo 4ᵒ, inciso I, não é a mesma estrutura?

Fhilippe Buchez, um destacado seguidor francês das ideias do filosofo Saint-Simon, e apontado por boa parte da doutrina cooperativista como o primeiro doutrinador científico do cooperativismo, pelo seu livro o “Diário de Ciências Morais e Políticas” publicado em 1831. A obra traz argumentação racional e bases técnicas firmes que tratam da importância do financiamento do empreendimento para sua viabilidade e sustentabilidade econômica. A estabilidade viria de um sistema congregando os vários grupos de cooperados (trabalhadores) e suas cooperativas, que juntos gerariam um excedente de capital que deveria ser reenvestido na cooperativa para criar reservas e fortalece-la. Todavia haveria também, com este capital, a necessidade de criação de fundos indivisíveis e indissolúveis para aplicação na área de aperfeiçoamento técnico e área social, portanto fundos educacional e social. Não seria a razão e nascimento para a ideia de existência  de fundos indivisíveis nas cooperativas, conforme texto do artigo 28 da lei cooperativista brasileira?

Inspirado pelas ideias de Buchez, em 1839, Louis Blanc publica a obra “A Organização do Trabalho” um tratado que explica e aponta a cooperativa como a melhor forma de manter e conseguir renda e aumentar a produtividade, principalmente a união dos pequenos para traze-los a uma participação econômica de acesso ao mercado de consumo.

Com a gama de experiências práticas acumuladas e o contido nas obras teóricas de cooperativismo estava formado o substrato para uma “codificação” principiológica geral do modelo cooperativo, embasando uma experiência prática que se constituiu no marco da cooperativa moderna – a cooperativa dos “tecelões de Rochdale”. Isto se materializou  com a inscrição legal da “Sociedade dos Justos Pioneiros” em 24 de agosto de 1844, em Manchester na Inglaterra.

A importância da cooperativa de Rochdale está no fato de que pela primeira vez estavam reunidos, num mesmo empreendimento, a vontade livre de união do grupo, com fins pacíficos (cooperação), aberta a comunidade e com objetivo de assegurar a livre adesão, com um espírito empreendedor, no sentido de atuar na dimensão econômica, de forma racional, não para obter lucro na sociedade, mas parar gerar sobras para a melhoria do grupo e aumento da cooperativa (solidarismo). A sustentar tudo isto já havia um cabedal filosófico de princípios sólidos e formulas teóricas de funcionamento e ainda alguns ensaios, em cujos malogros se poderia inspirar para evita-los. Além disto, se deixou bastante claro e resumido, os pontos centrais de funcionamento da cooperativa, que hoje conhecemos como sendo os princípios norteadores e disciplinados pela Aliança Cooperativa Internacional e que servem para configurar a sociedade cooperativa, mundo afora. No estatuto de 1844 da cooperativa de Rochdale  constavam expressos os seguintes princípios: 1. Ajuda Mútua; 2. Controle societário democrático; 3. Gratuidade de cargos ( no seu exercício); 4. Livre adesão (ingresso e saída); 5. Compra e venda à vista; 6. Interesse limitado sobre o capital (retira o foco sobre o capital como havia nas outras sociedades); 7. Retornos na forma cooperativa (devolução dos excedentes com base nas operações). Em 1845 houve a reforma do estatuto esclarecendo que cada cooperado tinha direito a apenas um voto e regulando operações por estabelecimento e limitando percentualmente o capital que cada cooperado poderia ter, mas sem mexer na essência. Em 1854 outra modificação introduziu a possibilidade da realização de operações com terceiros, a preocupação com a instrução e aperfeiçoamento dos cooperados, utilizando-se fundos para isto e a destinação do patrimônio da cooperativa em caso de dissolução da sociedade, com a consequente destinação dos ativos a um fundo social caritativo ou ao Poder Público.

A relevância destes princípios pode ser sentida até os dias de hoje, pois eles são verdadeiros dogmas no cooperativismo, ante ao fato de que detalham a essência do pensamento e filosofia da cooperação. A cada um deles temos pelo menos um comando legal na lei cooperativista brasileira, quando não, vários comandos regulando da mesma formula, por exemplo,  a “Ajuda Mútua” está clara logo no caput do artigo 3ᵒ; o “Controle societário democrático” muito bem explicado no artigo 38, a possibilidade de gratuidade do exercício dos cargos, no inciso IV do artigo 44, a “Livre Adesão” no inciso I, do artigo 4ᵒ; a questão das compras à vista foi eslastecida ao longo dos anos possibilitando às cooperativas o sistema de “conta corrente”, mas a legislação regulamenta a prestação de contas anuais com a necessidade do cooperado arcar com as perdas do exercício, como previsto, por exemplo no inciso IV do artigo  21, delegando regulação pormenorizada pelo Estatuto Social.

O interesse limitado ao capital continua o diferencial entre as cooperativas e as sociedades empresarias e, aparece regulado em vários momentos na lei cooperativista, o mais claro talvez seja o comando do inciso III, do artigo 4ᵒ, ou no parágrafo 3ᵒ, do artigo 24. O “Retorno Cooperativo” está evidente no inciso VII, do artigo 4ᵒ. A singularidade de voto no inciso V, do mesmo artigo 4ᵒ. As operações com terceiros estão disciplinadas nos artigos 85, 86 e 88; a preocupação com o aperfeiçoamento do cooperado está na constituição obrigatória do FATES (artigo 28, inciso II), bem como na preocupação social que aparece no texto do inciso X, do artigo 4ᵒ. A questão da destinação do patrimônio ao Estado ou a um caráter social está, no hoje controvertido, inciso VI do artigo 64.

Como se nota, a lei cooperativista brasileira observa todos os princípios cooperativistas cardeais clássicos. É por isto que quando se pensa em alteração legislativa é necessário, antes de mais nada, se observar a estrutura fundamental do cooperativismo para não se incorrer em alteração que venha a ferir a estrutura impar deste tipo societário, que possui larga fundamentação doutrinaria como sistema econômico e social.

PARTE II

Na parte I encontra-se um resumo do pensamento clássico cooperativista desde o século XVII até o marco institucional da cooperativa de Rochdale, em 1844. Esta segunda e última parte do artigo, parte da exitosa experiência inglesa de estabelecimento dos princípios cardeais da moderna estrutura do modelo cooperativo e chega até os ensinamentos de Charles Gide, falecido em 1932 e que como economista traçou bases científicas do modelo cooperativo como um integrante do mercado.

Se poderia, para fins didáticos, dividir este resumo do pensamento clássico do cooperativismo em três partes: a primeira parte marcada pelo idealismo de união do grupo humano, com fortíssimo cunho e importância religiosa; um segundo momento, a união encontra valores humanísticos e solidários, naturalmente muitos destes autores, representantes  desta época, continuaram a imprimir valores cristãos, mas que não deixam de estar na mesma classificação do “solidarismo humano”. A terceira fase não se afasta dos ideais do solidarismo, mas se nota uma maior preocupação com o econômico, traduzido na praticidade econômica do modelo e na busca da perpetuação do empreendimento cooperativo. Neste momento é que surgem as primeiras lições especificas sobre as cooperativas de crédito.

O título de primeiro expoente desta fase poderia ser atribuído a Hermann Schulze-Delitzsch (1808-1883), um destacado jurista e político da cidade de Delitzsch, no estado da Saxonia, noroeste da Alemanha, responsável pela redação do Código Cooperativo da Prússia, de 1867. Foi um grande exemplo de cooperativista tendo participado da constituição de várias cooperativas de crédito, com destaque na ideia de constituir “bancos populares”. Talvez sua maior contribuição acadêmica tenha sido a lição de que a cooperativa deve buscar ao máximo a adaptação ao tempo e condições econômicas do mercado, para competir, todavia, nunca deve se desviar dos princípios cooperativos e sempre se preocupar com a ética. Era um visionário da inter-cooperação (consórcios entre cooperativas) para fortalecimento do sistema cooperativo econômico. Se Schulze-Delitzsch se preocupava (também) com os pequenos empresários e sua dificuldade de crédito, o mesmo cuidado era dedicado aos pequenos agricultores e suas dificuldades nesta área creditícia pelo também alemão Friedrich Wilhelm Raiffeisen (1818-1888). Raiffeisen foi um  político de destaque no estado da Renania-Palatinado, até hoje com tradição forte no cooperativismo agrícola e de crédito alemão. Publicou, no ano de 1865, uma obra sobre as “caixas rurais” (cooperativismo de crédito agrícola), com o título “As associações de caixa de crédito mutuário  como forma para evitar (minorar) a miséria (necessidade) da população  rural, e dos artesões e trabalhadores urbanos”[3],  baseando-se nos  princípios da auto ajuda, auto responsabilidade e auto gestão. Sua influência doutrinara é sentida ainda hoje no ramo crédito.

Os italianos também se destacaram nesta fase e no ramo de crédito, a exemplo de Leone Wollemborg, um discípulo das ideias de Raiffeisen, cuja obra publicada em 1884, “As cooperativas de crédito”[4] inspirou e estruturou o pensamento italiano neste setor. Outro grande exemplo foi Luigi Luzzatti (1841-1927), um destacado político, ministro da agricultura, depois da economia que chegou a ser primeiro ministro da Itália. Professor de direito da Universidade de Roma, também economista, foi um entusiasta e discípulo de Schulze-Delitzsch difundindo as teorias econômicas deste, fato que resultou no estabelecimento de um pensamento cooperativista geral (ramo credito) na Itália, cuja obra registra mais de 6000 páginas de escritos sobre cooperativismo, economia e problemas populares. Sua obra de 1863 “A difusão do crédito e o banco popular”[5] ainda hoje é estudada pela sua relevância social. É lembrado pela sua frase: “deve-se converter em capital a honestidade”. No seu pensamento denota-se que Luzzatti considera que o crédito é um instrumento crucial para a prosperidade econômica da população comum, porque deve haver uma circulação de dinheiro que possibilita o comércio e o consumo. Ele desacreditava que os grandes bancos privados pudessem fornecer este crédito, pois não tinham interesse em arriscar capital com risco e se restringiam a praticar apenas operações modestas. Sua crença era que “se o usuário estivesse ligado ao empreendimento, seria de tal forma responsável por este que honraria o crédito”. Luzzatti apostava no fato de que este conjunto de cooperativas poderiam fornecer garantias suficientes para dar crédito às classes mais populares, uma vez que todos os cooperados seriam donos e usuários da instituição, estando “amarrados”, no bom sentido, e assim haveria um compromisso moral de só solicitar crédito que se pudesse honrar. Luigi Luzzatti entendia muito bem a relação cooperativa – cooperado, como mais tarde, bem ira descrever e explicar Walmor Franke, na sua obra que influenciou a construção dos artigos da lei 5.764/71. Luzzatti ensinava que “na dupla qualidade de devedor e credor, (este) é um parceiro em mil maneiras de trabalhar instigado prosperidade da instituição comum (cooperativa).” Defendia a ideia de que diferente dos bancos capitalistas, não havia na cooperativa, interesse em adiar o pagamento para se ter vantagem ou se cobrar mais juros para se ter grandes lucros.

A participação no Congresso Cooperativo de Cremona em 1907 é citado por ter sido o fórum no qual Luzzati descreveu seu pensamento acerca da cooperativa de crédito como instrumento e fórmula financeira de uma economia de solidariedade. Atuou para a criação de um Instituto Central de Crédito entre cooperativas e a Administração Pública, em Roma.

Em relação ao cooperativo agropecuário, embora atuasse também no crédito, pois acreditava que uma atividade dependia da outra, ainda nesta fase da história do pensamento cooperativo, destaca-se Karl Friederich Wilhelm Haas (1839-1931). Político e reformador social alemão, radicalizado na cidade de Darmstadt, sul do estado de Hessen, próximo a Renania-Palatinado, região com tradição no cooperativismo agropecuário, era um liberal de pensamento. Por suas posições houve conflitos ideológicos com o grupo liderado por Raiffeisen. Wilhelm Haas tinha por princípio evitar todo tipo de regras imperativas restritivas para as cooperativas, evitando também, qualquer tipo de definição ideológica.  O princípio básico defendido por Wilhelm Haas se resumia no binômio:  independência-autonomia. Haas defendia fortemente a "especialização" de cada cooperativa em um tipo determinado de atividade, em contrário com a ideia de concentração, do sistema Raiffeisen. Seu lema era: "A cooperativa significa a liberdade, a liberdade também e especialmente, na relação econômica"[6].

Como presidente da União de Cooperativas Agrícolas da Alemanha foi o responsável pelo “Programa de Darmstadt” que consistia na aplicação das considerações e deliberações decididas no Congresso Alemão das Cooperativas Agrícolas, a partir de 1883. Haas sempre teve por princípio econômico que as cooperativas deveriam buscar um maior aproveitamento comum para baratear estruturas e melhorar sua atividade destinada aos cooperados, entendendo que a verticalização em centrais era uma solução. Cooperativista intenso ele organizou a Associação das Cooperativas Agrícolas alemães que em 1903 passou a designação de Federação Nacional das Cooperativas Agrícolas Alemãs, sendo seu presidente e advogado geral.

Ainda nesta fase se poderia citar nomes relevantes do cooperativismo alemão como Eduard Pfeiffer, Victor Aimé Huber e Karl Korthaus, que contribuíram sobremaneira para o aperfeiçoamento e difusão do cooperativismo, enquanto doutrina e prática.

Nota-se que a transição do século XIX para o século XX foi marcada, no pensamento cooperativista dos teóricos e doutrinadores, como a busca de um cooperativismo empreendedor, passando a segundo plano o elemento mais abstrato que Garteiz Aurrecoa chama de “redentorista”. Nesta fase se abandona por completo as práticas de vida comunitária (colônias, falansterios, etc.). O pensamento do século XX centra-se na cooperativa como forma societária e ator econômico, com possibilidades de intervir e participar do mercado com condições de mercantilidade (compettividade), todavia mantendo sua essência de sociedade participativa, democrática e de cunho social (sistema econômico-social de atuação).

Para encerrar este artigo, que visa resumir o caminho da construção do pensamento e da doutrina cooperativista (que influenciou e influencia todo o cooperativismo mundial),  a obra e os ensinamentos de Charles Gide são imprescindíveis.

Charles Gide (1847-1932) era economista e pertencia a chamada Escola Francesa de Nimes, que se consistia em um movimento de pensamento cooperativo francês, fundada também por Auguste Fabre e Edouard de Boyve, de forte atividade no sul da França. Gide como voz desta corrente, defendia princípios de uma cooperação de sentido emancipatória, com uma estrutura  democrática e com eficiência econômica, para abolir a vantagem capitalista do terceiro, mas sem cair nas redes do Estado. O primeiro congresso de Paris (1885), bem como os demais congressos cooperativistas e o periódico mensal "Emancipação" criado a partir de 1886, "jornal político e social de economia", impresso por cinquenta anos, foram os grandes instrumentos de propagação das ideias do grupo da Escola de Nimes. Charles Gide não era só um teórico, agia ativamente resolvendo problemas de gestão das cooperativas e também solucionando conflitos que surgiam da convivência das cooperativas com o comércio privado local. Para isto se criou em 1888, a "Associação Protestante para o Estudo Prático de Assuntos Sociais" em Nimes, Franca.

Gide pregava o princípio de solidariedade, ao lado de intelectuais como Louis Blanc, Henri Marion, Émile Durkheim, Léon Bourgeois, cuja base teórica é apresentada como a via entre o liberalismo e o marxismo. Sobre esta solidariedade Gide dizia: "não é como a liberdade ou igualdade um ideal puro: é um fato estabelecido pela melhor ciência e história, a interdependência dos homens vai se acentuar ainda mais e diariamente.”

Gide é o exemplo do economista atuando para cooperativismo prático. O fato de ser professor catedrático de Economia na Universidade de Paris dava-lhe base cientifica e lhe dava condições para influenciar e manter um rigor cientifico nos postulados da doutrina cooperativista e suas diferenças com a forma de agir e da  estrutura das sociedades empresarias.

No seu livro “(Curso) ou (Principio) de Economia Política”, com 26 edições publicadas na França, desde 1884 até 1931, com 19 traduções em idiomas estrangeiros,  estão os postulados científicos de uma nova ordem econômica projetada para superar os efeitos danosos e de desigualdade social do capitalismo. O pensamento de Gide propõe criar uma forma de “combate” pacífico ao sistema capitalista que gera desigualdades. Esta frente dar-se-ia através da união dos consumidores para a defesa de seus interesses, através de cooperativas. As cooperativas deveriam ser fortes o suficiente para não sucumbirem às regras do mercado de tal forma que no futuro haveria um “reinado do consumidor”, nos termos da teoria de Michel Derrion (já citado), a ponto de se tornar uma superação do modelo capitalista. Para alcançar este objetivo as cooperativas deveriam praticar o princípio do “justo preço”, sem buscar lucros, sempre na posição de defesa do consumidor e seu poder de consumo. As cooperativas de agricultores também deveriam fazer parte deste círculo cooperativo, bem como as cooperativas de trabalhadores urbanos. Gide objetivava na sua teoria econômica, criar uma rede. As cooperativas deveriam estar agregadas ao mecanismo de mercado, não deveriam estar a parte deste. Alguns autores chegam a utilizar o termo “cooperativas mercantis” dado o nível de complexidade de atuação na economia. Tudo isto visava atingir o objetivo de evitar lutas de classes sociais (pela diminuição das diferenças e desigualdades) que no final seria o desuso da pratica capitalista e sua busca desenfreada de lucro, sem observação de suas consequências. Gide buscava sobretudo a justiça social, a instalação de um modelo econômico para uma sociedade democrática e solidaria. A diferença de Gide para os outros teóricos que o antecederam, não está no idealismo, mas sim na tecnicidade da prática e da elaborada doutrina científica que desenvolveu para explicar e aplicar o modelo econômico que sonhava.

Gide foi um dos idealizadores e incentivadores da criação da Aliança Cooperativa Internacional que seria a “propulsora da nova ordem cooperativa”.

Do século XVII, aos dias de hoje, a história do pensamento cooperativo não se encerrou, pois, como diversos autor já chegaram à conclusão, o cooperativismo não tem dono ou autor, nasce da própria solidariedade humana e se desenvolve com a racionalidade e a busca de um mundo melhor, mais democrático e sem desigualdades. A cooperativa e a fórmula.

* Paulo Roberto Stöberl é assessor jurídico do Sistema Ocepar, doutorando em Ciência Política pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e atualmente na Universidade de Heidelberg, na Alemanha, como bolsista da Capes

 


[1]Grupo religioso inglês fundado por George  Fox (1624-1691), denominado “Sociedade dos Amigos” dissidente do protestantismo de Lutero e Calvino e levada para o Estados Unidos pela imigração de Willian Penn.

[2]Le commerce véridique et social”.

[3]Die Darlehnskassen-Vereine als Mittel zur Abhilfe der Noth der ländlichen Bevölkerung sowie auch der städtischen Handwerker und Arbeiter.

[4]Le Casse Cooperativi di Prestiti.

[5]La Difusión del Crédito y la Banca Popular.

[6]„Die Genossenschaft bedeutet Freiheit, Freiheit auch insbesondere in wirtschaftlicher Beziehung.“

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